A Queda do Império Americano: quem assumirá esse posto?
Com o elevado endividamento da economia americana e com a confiança abalada no dólar, podemos estar diante de uma grande passagem de bastão. Entenda.
ECONOMIA
Raphael Vidal
11/10/20258 min read


PARTE 1 – A HEGEMONIA EM JOGO
Em O Longo Século XX, Giovanni Arrighi aborda a queda e ascensão de impérios capitalistas começando por Gênova (Itália) do século XV ao século XVI, passando pela Holanda (século XVII-XVIII), Inglaterra (século XIX-XX) e por fim chegando ao ciclo dos EUA até os dias atuais.
Dando sequência a esse movimento, um dos temas mais quentes dos últimos anos é a iminência de estarmos diante de uma nova passagem de bastão, do ciclo americano para o ciclo chinês.
Confesso que encarava o tema de maneira cética. A China ultrapassar os EUA no PIB absoluto seria algo natural diante da massacrante diferença populacional. Contudo, o desafio, na minha visão, sempre foi superar a economia americana no PIB per capita e na capacidade de influência ideológica e de costumes, mundo afora.
O fato é que, com o acirramento das tensões globais em função da atual guerra comercial, torna-se necessário aprofundarmos esse debate, afinal, esse movimento engendrado pelo governo Trump claramente representa não só uma estratégia visando a contenção da escalada do endividamento americano, mas também uma resposta em prol da defesa da hegemonia americana ameaçada pela onda chinesa.
Vamos aos fatos. Quem é a China no jogo do bicho?
PARTE 2 – A CHINA
A China traz consigo a maior experiência da humanidade de retirada de pessoas da pobreza. Até antes da década de 1990, a China era mais pobre do que o Brasil. Foram milhões de pessoas que ascenderam de classe social e de patamar de renda.
Goste ou não, o partido comunista chinês executou um trabalho brilhante nos últimos anos. E, na minha visão, dois fatores foram chave nesse processo.
O primeiro reside na visão de futuro. A ausência de um regime democrático com alternância a cada 4 anos, permite que projetos estruturantes de longo prazo sejam traçados. E o governo chinês levou isso muito a sério. Desenvolveu investimentos massivos em infraestrutura e fomentou setores estratégicos da economia.
Mas foi uma boa dose de capitalismo que fez total diferença (segundo fator-chave): uma ampla abertura comercial do país.
A China era um país muito fechado até 1990, irrelevante no comércio internacional. Aliás, por séculos, a China sempre olhou muito mais para si do que para o resto do mundo. Afinal, um território imenso possui enormes desafios a serem superados por si só. E como agravante, a China historicamente sofreu muito com invasões de povos inimigos. A começar, lá atrás, pelos mongóis. Não à toa, a China precisou recorrer à Grande Muralha no passado para proteger seu território. Vale lembrar que o Japão é o grande inimigo histórico da China e não os EUA, dado o histórico de invasões e guerras a partir de movimentos provocados pelos japoneses.
A verdade é que a China, em sua história milenar, nunca invadiu nenhum país. Em outras palavras, não se trata de uma nação com viés imperialista, tal como o americano. Pelo contrário, o povo chinês tem um histórico sofrível, de fome e de ter que trabalhar duro para sobreviver.
Aqui reside um dos maiores diferenciais competitivos da China: a cultura do trabalho. O chinês trabalha das 9h às 21h. Isto é, 12 horas por dia de segunda a sábado, totalizando 72 horas semanais. Não há como comparar com o padrão de cerca de 40 horas semanais trabalhadas no ocidente.
Talvez por esse motivo, a China foi capaz de catapultar o seu crescimento após a sua abertura comercial, uma vez que o chinês se dedicou intensamente a copiar e depois a fazer mais e melhor diversos produtos que chegavam do exterior. Não dá mais para associar o produto chinês a algo de baixa qualidade. Pelo contrário, hoje a China ocupa a fronteira tecnológica em vários segmentos, a ponto de tornar-se a principal aspirante a protagonista global.


PARTE 3 - E OS EUA VIRARAM MESMO CARTA FORA DO BARALHO?
Se de um lado temos uma China pujante, de outro temos uns EUA repleto de contradições. Uma economia ainda muito forte, que cresce, porém extremamente endividada.




Já são mais de 38 trilhões de dívida pública, que crescem a uma média de mais de US$ 6 bilhões por dia. Com isso, a relação dívida/PIB já chega a elevados 120% e crescendo... A conta simplesmente não fecha e a tendência é só piorar.
Esse quadro é consequência de anos de déficits fiscais e comerciais. Um preço a se pagar pelo privilégio de ser o emissor da moeda de referência global.
Não por acaso, desde o dia 01/10/2025, o governo entrou em shutdown (paralisação de diversos serviços públicos), em função da não aprovação do orçamento anual por parte do Congresso.
A gestão Trump tem buscado encarar de frente o problema do endividamento principalmente via aumento de arrecadação, implementando medidas que vão desde a majoração de valores para emissão de vistos americanos para estrangeiros, passando até a criação do “Gold Card” que é o green card de cidadania americana para estrangeiros ao custo de módicos US$ 5 milhões.
Mas sem dúvida alguma, a principal estratégia do governo de equacionar seu déficit foi mediante as famigeradas tarifas comerciais. Logo no início do seu 2º mandato, Trump inicia um processo agressivo de imposição de tarifas, diga-se de passagem, afetando diversos países, inclusive nações amigas. É bem verdade, que esse processo denota outras intenções americanas de reordenar as cadeias produtivas globais e repatriar indústrias estratégicas para o território americano, mas deixemos isso de lado por enquanto.
Em meio a esse fogo cruzado, os países se percebem vulneráveis por estarem carregados de dólar e títulos de dívida americana, ativos antes da máxima confiança, mas que agora mostravam-se manipuláveis ao bel-prazer americano. O caso de exclusão da Rússia do Sistema Swift em 2022, já havia dado uma amostra desse poder americano de mudar as regras do jogo quase que unilateralmente.
Como reação, a maior parte dos países atuou em duas frentes. A primeira, buscando uma negociação mais amigável das trocas comerciais com os EUA. E a segunda, buscando reduzir a exposição financeira mediante a venda de títulos de dívida americanos, trocando-os pelo ouro. Não por acaso, o mineral tem rompido suas máximas históricas em 2025.
Se a principal potência do mundo não se mostra mais tão confiável, natural que o capital global flua para a segunda maior potência, certo? Errado.
PARTE 4 - NEM TUDO SÃO FLORES
Ao longo dos últimos anos, a China frustrou muitos investidores, em função da sua condição institucional/regulatória. Ou seja, o mesmo fator que de um lado foi citado aqui como promotor do crescimento chinês, agora torna-se vilão.
Maior exemplo disso, foi em 2021 quando, em uma canetada, o governo proibiu empresas de tutoria (educação) voltadas ao ensino curricular básico pudessem operar com fins lucrativos. Do dia para a noite, empresas nacionais e estrangeiras de um segmento inteiro foram simplesmente colocadas para fora do jogo.
Esse é o motivo principal que sustenta a tese do por que poderemos não assistir um ciclo chinês tão dominante quanto é (ou foi) o americano.
A questão é que diante dos fatos recentes, o capital global tem fluído para outras geografias, Europa e emergentes em especial. Não por acaso, a Bolsa brasileira vem rompendo suas máximas históricas nas últimas semanas, mesmo em meio a uma restritiva taxa de juros de 15% a.a.
Aliás, o Brasil tinha tudo para surfar um ciclo de abundância diante desse reordenamento global. Temos forças no agronegócio e no setor energético, por exemplo. Mas o ambiente institucional, político e tributário não brilha os olhos do investidor. A alocação Brasil no portfólio de um investidor estrangeiro é residual, arrisco a dizer como algo entre 1% a 2%. É por esse motivo que qualquer fluxo a mais, faz muita diferença na nossa Bolsa. Mas no todo, decepcionamos.
PARTE 5 - CONCLUSÕES
Se não será a China (muito menos o Brasil) a grande vencedora desse processo, quem será? Humildemente, não sei. Só o tempo dirá. Mas não tem como não ficarmos de olho na Índia.
Assim como a China, a Índia é uma economia aberta, com um mercado interno gigantesco, afinal estamos falando da maior população do planeta com quase 1,5 bilhão de pessoas. Além disso, muitos indianos falam inglês em função da colonização britânica, o que facilita o intercâmbio entre pessoas e empresas. A mão de obra indiana também é barata e se mostra ser elite sobretudo na área de tecnologia. Exemplo disso é que multinacionais como Google, Microsoft, IBM e Adobe possuem CEOs indianos.
Adicione a essas valias, um país com infraestrutura precária e com grande parte da população ainda em condição de pobreza. Eis uma combinação poderosa que tende a colocar, na minha visão, a Índia como a principal geografia de atração de capital global nas próximas décadas.
Ademais, não creio que teremos uma passagem de ciclo hegemônico dos EUA para a China tão binário como no passado.
Creio que os EUA continuarão sendo a principal influência cultural e ideológica global, em função da sua natureza imperialista.
Creio que a China será dominante em sua natureza comercial, isto é, fortalecendo ainda mais a sua presença não só no Oriente, mas também na Europa, África e nas Américas. Não creio que a China tentará nessas regiões empreender alguma invasão territorial ou imposição de sua ideologia ou regime de governo.
Creio, por fim, que o fluxo de capitais continuará seu movimento de diversificação, reduzindo sua concentração no dólar e na dívida americana, e buscando se adensar em países e ativos que apresentem confiança, segurança jurídica e regulatória, e potencial de crescimento.
É para deixar de investir nos EUA? Jamais! As melhores empresas do mundo estão lá e a economia vai continuar crescendo. Mas um portfólio vencedor deve contar também com posições diversificadas regionalmente, com ênfase à Índia, além de ativos que representem uma melhor reserva de valor do que o dólar e a dívida americana, ou seja, ouro e bitcoin.
