O governo Lula é uma tragédia completa? Ou está tudo bem, obrigado? (Uma análise sem paixões)
De um lado, o governo defende que estamos no caminho certo, com crescimento e pleno emprego. De outro, a oposição critica o desequilíbrio fiscal e a elevada carga tributária. Afinal, quem está certo?
ECONOMIA
Raphael Vidal
9/28/20255 min read


Governo Lula entrando em sua reta final. Desde já só se fala nas eleições do ano que vem. Mas afinal, deixadas as paixões de lado, a gestão atual está sendo positiva ou negativa para o país?
Analisar os resultados de uma gestão pública requer considerar diferentes dimensões (econômica, social, ambiental, institucional...). Como economista e profissional do mercado financeiro vou me ater exclusivamente à dimensão econômica. Ademais, o governo está ainda em curso e a depender do que vier a ocorrer a avaliação pode mudar.
A avaliação econômica final do mandato, seja positiva ou negativa, obviamente divide os adeptos da esquerda ou direita, mas diria que divide também a opinião pública de centro, uma vez que há um nítido conjunto de dados/indicadores pró governo e outros que depõem contra. Dai a importância de uma análise ponderada, sem extremismos.
Passarei pelos principais elementos que estão no cerne do debate e ao final darei o meu veredicto.
Indicadores/resultados econômicos FAVORÁVEIS ao governo:
PIB crescendo: Vimos de crescimento contínuo de 3,2% do PIB em 2023; 3,4% em 2024; e de previsão de fecharmos 2025 próximo a 2%.
Pleno emprego: A taxa de desemprego caiu de 9,3% em 2022 para 5,8% em 2025, patamar que sugere estarmos próximos ao nível de pleno emprego.
Dólar cedendo: Saímos de um câmbio estressado em janeiro de 2025 próximo a R$ 6,22 para R$ 5,35. Patamar que não víamos desde junho de 2024 e que foi a média que giramos durante os anos de pandemia.
Bolsa na máxima histórica: Neste mês de setembro de 2025 o Ibovespa está batendo sua máxima histórica a 145 mil pontos.
Indicadores/resultados econômicos DESFAVORÁVEIS ao governo.
Inflação: O governo tem mostrado muita dificuldade em entregar a meta de inflação. Em 2023 o IPCA ficou em 4,62% (acima da meta de 3,25%); em 2024 ficou em 4,83% (acima da meta de 3,00%); em 2025 estima-se fechar em 4,80% (acima da meta de 3,00%).
Juros: Desde julho de 2006 não se via uma Taxa Selic tão alta no país (15%).
Carga tributária: Ano após ano o governo tem batido recorde de arrecadação. Especialistas apontam que a carga tributária atual que gira de 33% deve subir para 35% caso aprovada a reforma tributária dentro dos termos atuais que estão em tramitação. Teremos uma das maiores do mundo.
Desequilíbrio fiscal: O governo vem colecionando déficits fiscais anuais, ou seja, gastando mais do que arrecada. Como resultante a relação dívida PIB do Brasil saltou de 73,5% em 2022 para 77,2% em 2025.
Anos sem IPO: A Bolsa de Valores brasileira está desde setembro de 2021 sem nenhuma nova empresa listada. Pelo contrário, de lá pra cá houve dezenas de fechamentos de capital.
Mortalidade de empresas: O número de pedidos de recuperação judicial pelas empresas tem sido crescente. Em 2023 foram 1.405 pedidos (69% a mais em relação a 2022). Em 2024 foram 2.273 pedidos, recorde histórico, ultrapassando os 1.863 pedidos de 2016.
VEREDICTO:
Contra fatos não há argumentos. Há indicadores econômicos positivos e negativos neste governo Lula. Isso significa que não estamos diante de uma total terra arrasada tão como é colocado por boa parte da mídia pró mercado, nem em um arco-íris tão como conta coloca a esquerda. É necessário descermos em uma camada além só da notícia e do número, a fim de extrair maiores conclusões. Adianto que eu estou do lado mais crítico ao governo.
Na minha visão o epicentro do problema está no padrão de crescimento assumido em que o Estado se coloca como principal indutor da economia.
O leitor poderá compreender melhor a partir da imagem a seguir. Trata-se da fórmula de cálculo do PIB sob a ótica do gasto:


Os sucessivos déficits fiscais corroboram a tese de que o governo busca gerar crescimento do país inflando desenfreadamente o “G” desta equação.
Ao fazer isso, não só o desequilíbrio fiscal vem à tona, como também o próprio governo vira o maior vilão com relação ao controle da inflação.
Com efeito, a ânsia arrecadatória para fechar a conta torna-se cada vez maior. Impostos são revisados para cima (vide exemplo mais recente do IOF), asfixiando ainda mais as empresas já massacradas pelos juros elevados. Em paralelo, a classe média cada vez mais vê o seu poder de compra sendo corroído pela inflação.
Reflita: o que acontece na sua casa se você começar a gastar mais do que recebe sucessivamente? Esse é o ciclo vicioso em que nos metemos, com crescimento econômico artificial sustentado pelo excesso de gasto público. Em vez de adotar medidas responsáveis, o Estado busca atalhos que nos prendem em uma eterna armadilha de baixo crescimento e juros altos.
Sem contar a questão do nível emprego. Na realidade existe uma falsa indicação de que estamos a pleno vapor. Ao longo dos anos a metodologia do IBGE foi sendo afrouxada. Há milhões de trabalhadores informais, pessoas que vivem de algum assistencialismo e ainda jovens que nem estudam, nem trabalham, que simplesmente ficam de fora das estatísticas, reduzindo artificialmente a taxa de desemprego do país.
O que mostra o outro lado da moeda?
Em primeiro lugar, é consensual na bibliografia econômica, que na equação do PIB o principal fator que gera crescimento estrutural na economia são os Investimentos. Aqui são incluídos investimentos públicos e privados.
Investimentos públicos voltados a infraestrutura (estradas, ferrovias, portos e aeroportos) são fundamentais nesse processo. Mas não se vê disposição a isso. Primeiro, porque o governo sofre de um processo de rigidez orçamentária, em que os gastos constitucionais em saúde e educação somados à previdência social e juros da dívida, corroem a capacidade de investimento do Estado. Segundo, pois o pouco que sobra é destinado a pautas curto prazistas e eleitoreiras, especialmente a programadas assistencialistas. Estes por sua vez, se transformam em consumo sem gerar efeitos multiplicadores.
O investimento público forma a base, mas é principalmente no investimento privado que nasce a grande transformação. As economias mais dinâmicas são formadas por um setor privado pujante. São nos negócios que ocorrem a grande absorção de mão-de-obra e os grandes saltos tecnológicos que promovem a geração de riqueza e o desenvolvimento sustentável.
Como foi dito antes. Não estamos diante de terra arrasada. Basta que o Estado comece a fazer a sua parte. Sou cético que o governo Lula o faça, mas se formos traçar aqui o receituário indicado, o primeiro passo seria a neutralização dos déficits correntes, afinal é o desarranjo fiscal atual que tem provocado a postura hawkish do Banco Central. Esse ponto levaria a uma redução da inflação e espaço para cortes de juros. Na sequência, deve-se abrir mais espaço para o setor privado via privatizações e concessões. Por fim, que houvesse uma união da classe política em prol de ajustes importantes na reforma tributária que está em tramitação, visando uma real redução da carga tributária nacional.
Só assim, reduzindo o tamanho do Estado e passando o protagonismo econômico para o setor privado, estaríamos pivotando o modelo de crescimento para a direção correta: o caminho da prosperidade. Seria sonhar demais?
