Os fins justificam os meios?
Reflexões acerca da intervenção americana na Venezuela.
POLÍTICA
Raphael Vidal
1/4/20263 min read


Os fins justificam os meios? Incrível como uma frase cunhada há tanto tempo por Maquiavel é capaz de despertar ainda grandes reflexões séculos depois.
Na manhã deste sábado (03/01/26) acordamos com a notícia do ataque americano à Venezuela seguido da captura do presidente Nícolas Maduro.
Imediatamente aqui no Brasil ganhou força um debate acerca da legitimidade do ato.
De um lado, as pessoas consideradas mais à direita demonstrando apoio, vibrando com a notícia e celebrando a captura de Maduro e a liberdade do povo oprimido.
De outro, as pessoas consideradas mais à esquerda repudiando a iniciativa, alegando uma afronta à soberania venezuelana e alertando para os interesses americanos em pôr as mãos nas reservas de petróleo venezuelanas.
Eu, em particular, me considero um cara cujas ideias convergem ao liberalismo e ao espectro da direita, contudo me incomoda muito ter que me posicionar sobre os assuntos a partir de uma camisa de força ideológica.
Convido todos a esquecerem por um momento o fanatismo ideológico e a buscar refletir sobre essa situação a partir do prisma dos nossos valores e do que acreditamos ser a coisa certa. É o que buscarei fazer a seguir.
De antemão, sinto frustrá-los. Esse tema me deixou muito em cima do muro, pois há muitas contradições envolvidas.
Que o povo venezuelano sofre há décadas, todos nós sabemos.
Que Nícolas Maduro é um tirano, todos nós sabemos.
Que provavelmente, esse episódio pode ajudar a Venezuela a estabelecer uma democracia plena, uma economia mais aberta e reverter sua condição de pobreza, todos nós sabemos.
Que Donald Trump não é nenhum santo preocupado com as pessoas e os mais vulneráveis, todos nós sabemos.
Que os EUA possuem interesse no petróleo venezuelano, todos nós sabemos.
Mas iai? Quem está certo na história?
Repito: ainda estou em cima do muro. Mas alguns pontos insistem em martelar na minha cabeça.
Primeiro, se eu disser que não fiquei feliz pelo povo venezuelano, eu estaria mentindo. Certamente gerações de famílias reacenderam a chama da esperança de ter um futuro melhor. Não se esqueça das milhares de pessoas que abandonaram seus país em troca de melhores oportunidades. Quantas famílias de venezuelanos você já viu na rua, vivendo como pedintes, mas que mesmo assim optaram por essa vida a permanecer no seu país?!
Segundo, se eu disser que não fiquei feliz de ver Maduro sendo capturado, eu estaria mentindo. Caras como ele, Fidel, Putin… merecem de alguma forma pagar pelos seus atos. O ponto é: quem tem o direito de pará-los ou de puni-los? Os EUA? A ONU? Ninguém? Ou somente a justiça divina?
Terceiro, por que raios de repente, a Venezuela virou um inimigo declarado dos EUA a ponto de roubar tanta atenção? Ainda mais em um contexto geopolítico tão turbulento para os EUA se preocupar (Rússia x Ucrânia; Israel x Hamas.).
Por que o alvo foi a Venezuela e não a Colômbia, dado que a Colômbia, seja talvez o país sulamericano com o maior império associado ao tráfico de drogas?
O que aconteceu na Venezuela nos últimos meses que não vinha acontecendo há anos a ponto de despertar tamanha atenção dos EUA?
Esse ponto me intriga bastante e me faz acreditar que o discurso de bom moço, de acabar com o narcotráfico, é somente uma justificativa para a sociedade para mascarar interesses reais bem mais importantes.
Quarto, me incomoda muito a forma com que tudo isso se desenrolou. Quer dizer que quando um país mais poderoso quiser interferir à força na forma como um outro país atua, tudo bem ele posicionar suas tropas, invadir e desmantelar um governo?
Ah! Mas o Maduro é um ditador! Foi uma atitude justificada!
Então amanhã podemos invadir a Cuba, certo?
Caso sim, porque não invadir na sequência o país A, B, C, D e E dado que não há alinhamento ideológico/político?
Por que não invadir o Brasil?
E se fosse Lula capturado enquanto presidente?
E se fosse Bolsonaro capturado enquanto presidente?
E se fosse Getúlio Vargas? Ou FHC?
Isso é certo?
Ou depende?
Depende do país e do governante?
Se aquele país/governante é meu opositor, eu posso?
Iremos aplaudir quando for conveniente e repudiar quando não for conveniente?
O fato é que foram abertas prerrogativas perigosas com essa intervenção americana. Iremos ignorá-las?
Em suma, percebem como é um tema delicado, cheio de contradições? Tem coisas boas, coisas ruins. Me reservo ao exercício de continuar refletindo a respeito.
E para finalizar, deixo como mensagem a importância de buscarmos ir além. De evitarmos ficar na primeira camada, na camada mais superficial do pensamento da camisa de força ideológica. Ouça os dois lados, reflita a respeito e chegue às suas próprias conclusões.
